
Clarice Lispector trás no livro paixão segundo GH, a investigação de uma mulher em busca sua verdade essencial. De suas verdadeiras aspirações. De seus desejos iniciais. A busca de si mesma em face ao nada. Nenhuma saída prévia. Nenhuma salvação a não ser a autoconsciência. Essa descoberta que é feita aos poucos diante de um caminho cheio de oscilações. A luta contra esse movimento vicioso de se entregar novamente ao conhecido, ao pré-estabelecido. A comodidade dentro das imposições. Enquanto o mundo nos impõe regras criadas por nós mesmos, nós nos alienamos e acreditamos sermos comandados por uma lei maior. Uma grande mão que ilusoriamente comanda nossas vidas.
Assim como a personagem de Clarice Lispector, a protagonista da peça “Não vamos Falar Sobre isso Agora” está todo o tempo procurando ir além dos limites do não ser, se entregando ao mistério do ser. Ao desconhecido, mesmo que isso lhe afaste da vida que antes imaginava ser a única possível. A personagem vai aos poucos descascando a vida, indo além. Em meio a divagações e questionamentos sobre sua vida, ela percebe que “Ser” é como uma lacuna que quando preenchida transformasse imediatamente em outra. Uma busca interminável, que uma vez estabelecida vai de encontro a tudo que a limita.
A autora Julia Spadaccini escolhe discorrer sobre o assunto através de fragmentos da relação da personagem com um homem. As cenas dessa relação são pontuadas pelos questionamentos mais íntimos vividos no decorrer da construção e descontrução do desejo. O que se percebe ao final é que a importância do drama de um único homem, seus tormentos e sua inquietude é tão essencial quanto de toda a humanidade.
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